Alexandre Bortoletto

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Pluribus

A Festa da Felicidade Que Ninguém Pediu

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Alexandre Bortoletto
dez 26, 2025
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Se você acordasse amanhã e descobrisse que o mundo inteiro — menos você — decidiu ser eternamente feliz, você comemoraria ou fugiria? Essa é a pergunta que permeia “Pluribus”, a nova série de ficção científica de Vince Gilligan para a Apple TV+. Com apenas uma semana de lançamento, a série já rompeu recordes de audiência, conquistando 99% de aprovação crítica e atingindo 6,4 milhões de horas assistidas. Mas por trás dessa máquina de sucesso existe uma reflexão perturbadora sobre o que estamos dispostos a sacrificar pela paz — e sobre aqueles que se recusam a fazer esse trato.​

O Paradoxo do Fim Perfeito

Imagine um vírus que traz apenas benefícios: sem conflito, sem sofrimento, sem aquela angústia matinal de acordar e pensar “meu Deus, por que?”. Parece um presente dos deuses. Até que você percebe que ninguém mais consegue discordar de nada. Ninguém erra. Ninguém quer. Ninguém escolhe. Todos apenas... concordam. E aí vem Carol Sturka, a protagonista interpretada por Rhea Seehorn, como a única pessoa no planeta que ainda é capaz de estar brava, frustrada, insatisfeita — em outras palavras, viva.​

A série não começou assim. Começou com um sinal vindo do espaço, capturado numa noite qualquer por astrônomos em Albuquerque, Novo México. Dentro daquele sinal extraterrestre havia uma sequência de RNA — basicamente uma receita biológica. A curiosidade científica, aquela mesma que nos fez grandes, nos fez também desta vez totalmente vulneráveis. O vírus se espalhou pelo mundo, e ao acordar, a humanidade descobriu ter se transformado em uma única mente coletiva: pacífica, cooperativa, feliz demais.​

O génio de Gilligan está em fazer isso parecer uma utopia. E, durante alguns episódios, quase é. Mas a série sussurra um incômodo cada vez mais alto: será que a felicidade sem escolha é realmente felicidade? Ou é apenas anestesia?

Carol: A Mulher Que Não Consegue Ser Feliz (E Por Isso É Essencial)

Carol Sturka é uma escritora de romances rosa famosa. Seus livros vendem milhões. Mas ela os detesta profundamente — chama-os de “lixo sem sentido”. É aquele tipo de pessoa que, mesmo no sucesso, encontra razão para reclamar. E, numa série sobre um mundo que recusa a tristeza, isso a torna — sem saber — uma revolucionária.​

Quando o vírus atinge Albuquerque, Carol não cai. Não se “acorda transformada”. Ela permanece a mesma: amarga, cética, desapontada. Durante o caos global, sua esposa Helen (interpretada por Miriam Shor), morre nos braços do coletivo. E Carol fica sozinha, lamentando uma morte que ninguém mais pode compreender, porque todos estão ocupados demais sendo felizes.​

A série a segue nesta jornada quase impossível: estar de luto num mundo que não reconhece o luto. Estar sozinha num mundo que prometeu acabar com a solidão. Estar certa num mundo que não pode discordar. Rhea Seehorn entrega uma performance de rara magnitude — a do silêncio, do gesto contido, da resistência através do simples ato de sentir.​

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